A Metamorfose da Exploração do Trabalho: do Sindicato ao Divã

A Metamorfose da Exploração do Trabalho: do Sindicato ao Divã

30 julho 2025
Retrato de Byung-Chul Han

Byung-Chul Han

PERGUNTA:

Byung Chul Han diz que “não existe mais um proletariado sob o regime neoliberal. Não há uma classe trabalhadora sendo explorada por aqueles que detêm os meios de produção. Quando a produção é imaterial, cada pessoa já possui seus próprios meios de produção. O sistema neoliberal não é mais um sistema de classes no sentido próprio. Ele não consiste em classes que demonstram antagonismo mútuo. Isso explica a estabilidade do sistema”.

Essa afirmação me parece um tanto imprecisa, uma vez que meios de produção, a meu ver, continuam existindo, mesmo numa sociedade de produção de conhecimento. Há críticas a essa colocação de Han?

DEEPSEEK:

Sim, há várias críticas à afirmação de Byung-Chul Han de que o neoliberalismo dissolveu a luta de classes e eliminou a exploração tradicional dos meios de produção. Embora sua análise capte aspectos importantes das transformações no capitalismo contemporâneo, muitos teóricos argumentam que ela subestima a persistência de estruturas de dominação e exploração, mesmo em uma economia baseada no conhecimento e na produção imaterial. Aqui estão algumas das principais críticas:

1. A persistência dos meios de produção no capitalismo cognitivo

Han argumenta que, na produção imaterial (como conhecimento, criatividade e serviços), os trabalhadores “possuem” seus próprios meios de produção (seus cérebros, habilidades, computadores). No entanto, críticos apontam que:

  • Infraestrutura material e plataformas digitais: Mesmo que um trabalhador do conhecimento tenha um laptop e acesso à internet, ele ainda depende de plataformas corporativas (Google, Meta, Amazon, Uber) que controlam a infraestrutura essencial para a produção e distribuição. Essas plataformas extraem valor por meio de monopólios de dados, algoritmos e condições de trabalho precárias (como na gig economy).

  • Propriedade intelectual e capital financeiro: Grandes corporações ainda detêm patentes, softwares e algoritmos que determinam quem pode produzir e como. O capital financeiro e os fundos de investimento controlam os fluxos de investimento em setores criativos, definindo as regras do jogo.

2. A exploração assume novas formas

Han sugere que a exploração direta (como na teoria marxista clássica) teria desaparecido, mas teóricos como Maurizio Lazzarato (em O Homem Endividado) e Nick Srnicek (em Capitalismo de Plataforma) argumentam que:

  • Precarização e renda: Trabalhadores autônomos, freelancers e profissionais criativos enfrentam instabilidade crônica, competição exacerbada e dependência de plataformas que impõem taxas e condições abusivas.

  • Extração de dados e trabalho gratuito: Usuários de redes sociais e serviços digitais produzem valor sem remuneração (como no “trabalho digital” descrito por Tiziana Terranova).

3. A ilusão da não-classe no neoliberalismo

Han afirma que o neoliberalismo não tem classes antagônicas, mas críticos como David Harvey e Nancy Fraser destacam:

  • Aumento da desigualdade: A concentração de riqueza nas mãos de uma elite (CEOs de tech, fundos de hedge, oligarcas digitais) é maior do que nunca. A classe trabalhadora tradicional não desapareceu – ela foi fragmentada (entregadores de app, operários de warehouses da Amazon, etc.).

  • Nova divisão entre “precariado” e elite: Guy Standing fala do precariado como uma nova classe vulnerável, enquanto a burguesia neoliberal se fortalece via financeirização e globalização.

4. A estabilidade do sistema é ilusória

Han vê o neoliberalismo como estável porque não há um proletariado revolucionário, mas isso ignora:

  • Crises recorrentes: Protestos globais (como os Gilets Jaunes na França ou greves na gig economy) mostram que a insatisfação persiste, mesmo sem uma narrativa de classe unificada.

  • A ascensão da extrema-direita: O neoliberalismo gera crises que alimentam movimentos reacionários (como Trump, Bolsonaro), que são uma forma de antagonismo político não resolvido.

5. Críticos específicos da tese de Han

  • Slavoj Žižek: Argumenta que Han romantiza a ideia de “autoexploração” neoliberal, ignorando como ela serve ao capital.

  • Mark Fisher (em Capitalist Realism): Mostra que a falta de antagonismo visível não significa fim da exploração, mas sim uma internalização da opressão (“depressão como sintoma político”).

  • Wendy Brown (em Undoing the Demos): Explica como o neoliberalismo desmobiliza a resistência coletiva, mas não elimina a dominação de classe.

Conclusão

A análise de Han é útil para entender como o neoliberalismo transformou a subjetividade (levando à autoexploração e à competição individualizada), mas ela subestima as estruturas materiais e digitais que perpetuam a desigualdade. A luta de classes não desapareceu – ela se reconfigurou, e o desafio é identificar seus novos contornos.

PERGUNTA:

E qual é a resposta de Han a essas críticas?

DEEPSEEK:

A resposta de Byung-Chul Han às críticas está enraizada em sua análise filosófica única sobre as mutações do poder no neoliberalismo. Ele não refuta diretamente cada objeção, mas desenvolve um framework teórico que redefine os termos do debate. Eis os pilares de sua defesa:

1. O foco na metamorfose da exploração: de externa para interna

Han argumenta que as críticas falham em captar a natureza ontológica da mudança:

  • Não é que a exploração desapareceu, mas ela se tornou autoinfligida. O trabalhador não é mais oprimido por um “patrão externo”, mas por sua própria psique (a “psicopolítica”).
  • Exemplo: O freelancer na economia do conhecimento não é explorado porque lhe falta um meio de produção (ele tem um laptop), mas porque internalizou a lógica da auto-otimização ilimitada (“preciso trabalhar 16 horas/dia para ser competitivo”).
  • Conclusão de Han: “A violência não vem mais do sistema de classes, mas do imperativo de performar” (Sociedade do Cansaço).

2. O neoliberalismo como não-sistema: a ausência de um “exterior”

Para Han, o neoliberalismo não é estável por ter resolvido contradições de classe, mas porque eliminou a possibilidade de resistência coletiva:

  • Sem “inimigo” identificável: Se todos são “empresários de si” (Foucault), não há um burguês opressor a ser combatido. A luta de classes é substituída pela guerra de todos contra todos (A Sociedade da Transparência).
  • A armadilha da liberdade: “Ter seus meios de produção” (ex: um celular para entregadores de app) não empodera, mas intensifica a autoexploração sob o discurso da flexibilidade e autonomia.

3. Crítica à esquerda “vintage”: o erro de buscar um proletariado que não existe

Han acusa os marxistas tradicionais de nostalgia teórica:

  • O problema não é a desigualdade material, mas a violência neuronal (burnout, depressão, ansiedade) gerada pela pressão para sermos “empreendedores” 24/7.
  • Foco no sintoma errado: Protestos por salários ou direitos trabalhistas (como greves de riders) não atingem o cerne do neoliberalismo, que é a colonização da vida interior pelo capital (Psicopolítica).

4. A “ditadura do positivo” e o fim do antagonismo

Sua tese mais radical: a luta de classes foi substituída pela patologização da insatisfação:

  • O antagonismo não “desapareceu” — foi medicalizado. A raiva contra o sistema é tratada como “depressão” ou “falha individual”, não como resistência política (Topologia da Violência).
  • Exemplo: Um trabalhador esgotado pelo overwork busca terapia, não um sindicato. A revolução é substituída pela resiliência.

5. Resposta às críticas sobre plataformas digitais

Han reconhece o poder das Big Techs, mas insiste que sua dominação é pós-classe:

  • Plataformas como Uber ou Meta não exploram via “propriedade dos meios” (no sentido industrial), mas pelo controle dos fluxos de atenção/dados e pela culpabilização do usuário/trabalhador (“sua avaliação está baixa!”).
  • A exploração é relacional, não material: O algoritmo é um “superego digital” que nos faz nos explorarmos.

Conclusão: Por que Han persiste?

Sua defesa se resume a um alerta:

“Não adianta combater o neoliberalismo com categorias do século XIX. O inimigo não é mais a fábrica com seu patrão, mas a prisão sem grades que construímos dentro de nós mesmos.”

Para ele, as críticas marxistas tradicionais falham porque:

  • Subestimam a internalização da lógica capitalista na subjetividade;
  • Ignoram que a liberdade neoliberal é uma forma mais eficaz de controle que a opressão clássica.

Seu legado é uma pergunta perturbadora: Como resistir a um sistema que nos convenceu a sermos nossos próprios carcereiros?

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