A heresia americana: devemos queimar Peter Thiel?

A heresia americana: devemos queimar Peter Thiel?

24 março 2026
Alex Karp e Peter Thiel

Alex Karp e Peter Thiel

Para compreender a trajetória intelectual e operacional de Peter Thiel, não basta observá-lo através do prisma convencional do capital de risco ou da inovação tecnológica. Thiel é, acima de tudo, um teólogo político atuando no próprio coração do ecossistema do Vale do Silício.

Para muitos, a Palantir Technologies — sua criação mais notável — encarna ou um Estado dentro do Estado encarregado de vigiar as massas ou, ao contrário, o escudo da ordem ocidental. Para Thiel, ela representa sobretudo a manifestação concreta de uma visão de mundo que questiona radicalmente os dogmas da modernidade democrática.

Ao mesmo tempo enigmática e influente, sua figura não se configura como a de um simples empresário, mas sim de um pensador que teceu uma trama ideológica complexa a partir de fontes muito diversas: da filosofia mimética de René Girard até a profecia anarcocapitalista, para chegar recentemente a um quadro teológico-apocalíptico tão inquietante quanto estruturado.

Toda a ação de Thiel pode, assim, ser interpretada como um ato prolongado de heresia contra o consenso liberal: uma contestação dos próprios fundamentos da coexistência civil, que ele considera agora ultrapassados.

Antes de nos aprofundarmos na arquitetura ideológica de Peter Thiel, é preciso, no entanto, devolver ao termo “heresia” seu sentido original, afastando-o de sua acepção comum de blasfêmia ou simples erro doutrinário, para restaurar a dignidade de sua etimologia grega. Hairesis designa originalmente uma “escolha”, uma opção — o ato de captar uma parte, distinguindo-a do resto. Em seu sentido filosófico mais profundo, a heresia não é, portanto, a negação da verdade, mas o isolamento de uma verdade parcial, separada do tecido relacional do todo e elevada ao status de princípio absoluto. É a absolutização de um fragmento separado da harmonia do todo: uma intuição particular sobre a natureza humana ou sobre a dinâmica social que, privada dos contrapesos necessários impostos pela complexidade do real, torna-se totalizante — e, a longo prazo, tirânica.

É sob essa perspectiva que se deve interpretar a visão de Thiel: não como uma simples rejeição dos valores ocidentais, mas como a radicalização patológica de alguns de seus componentes — a competição, a tecnologia, o indivíduo — que, erigidos como única bússola, conduzem a resultados radicalmente divergentes do projeto democrático comum.

A profecia do monopólio: Thiel, René Girard e a sombra da Máfia do PayPal

Para compreender a trajetória que levou o Vale do Silício a passar de um grupo de adolescentes utópicos em garagens a um centro nevrálgico do poder geopolítico mundial, é preciso remontar aos fundamentos filosóficos e relacionais que sustentaram sua ascensão mais espetacular.

No cerne dessa transformação, não está apenas a engenharia de software, mas uma forma de engenharia das almas e das sociedades, orquestrada por uma figura que reúne em si o papel do investidor e o do teólogo político: Peter Thiel.

Longe de se resumir a uma simples estratégia de negócios, sua visão constitui a tradução operacional de uma antropologia filosófica precisa — a de René Girard — encarnada e depois difundida por meio de uma das redes de poder mais influentes da história recente: o que se chama de “A Máfia do PayPal”.

A intuição girardiana: monetizar o desejo mimético em escala planetária

Esta história começa na década de 1980, na Universidade de Stanford. Enquanto estudava filosofia, o jovem Peter Thiel descobriu ali o pensamento de René Girard. Pela primeira vez, o antropólogo francês, conhecido por sua teoria do desejo mimético, ofereceu-lhe uma chave de interpretação da realidade que se revelou ao mesmo tempo perturbadora e decisiva.

No cerne da teoria girardiana está a ideia de que o desejo humano não é nem autônomo nem espontâneo, mas fundamentalmente mimético: desejamos o o que os outros desejam, não pelo valor intrínseco do objeto, mas porque o desejo alheio o designa como desejável. Aparentemente inofensiva, essa dinâmica carrega, no entanto, um potencial destrutivo considerável: quando dois ou mais indivíduos desejam a mesma coisa, a convergência dos desejos os transforma inevitavelmente em rivais, desencadeando uma competição suscetível de degenerar em violência mimética — uma espiral de conflitos que pode desintegrar o tecido social.

Thiel não se limita a estudar essa teoria: ele a internaliza. Ele a transforma em uma doutrina operacional para o mundo dos negócios. Enquanto a razão econômica clássica e a retórica capitalista celebram a concorrência como motor do progresso, Thiel, através do prisma girardiano, vê nela, ao contrário, uma armadilha mortal: uma forma de loucura coletiva que corroeria os lucros e destruiria o valor.

Se a concorrência constitui o equivalente comercial da violência mimética, então a estratégia vencedora não é ser um concorrente melhor, mas recusar a própria concorrência.

Em sua famosa obra De Zero a Um — que pode ser lida como um tratado girardiano aplicado às startups — Thiel defende que o objetivo de uma empresa não deve ser vencer em um mercado saturado, mas criar algo absolutamente único para alcançar uma posição monopolística. Nessa perspectiva, o monopólio torna-se a única saída para a violência mimética do mercado, o único espaço onde se torna possível produzir e capturar um valor duradouro.

No mundo dos negócios, Thiel se baseou nessa intuição filosófica para realizar seus investimentos mais lucrativos.

Sabe-se, por exemplo, que ele utilizou a teoria do desejo mimético para antecipar o sucesso do Facebook, investindo muito cedo na rede social, numa época em que esta ainda estava em seus primórdios. Enquanto muitos viam apenas mais um blog um tanto geek destinado a estudantes, Thiel percebeu nela uma “máquina mimética” perfeita: uma plataforma concebida para explorar uma necessidade humana fundamental — observar os outros, imitá-los, desejar o que eles desejam.

Ele próprio teria apresentado a Mark Zuckerberg as teorias de René Girard, persuadindo-o a ampliar a escala com uma frase de efeito: “quem possui uma máquina de produzir desejo possui o mundo”. Para ele, a introdução do botão “Curtir” e sua evolução posterior não constituíram apenas uma inovação técnica: representaram a implementação algorítmica perfeita do desejo mimético, um dispositivo destinado a amplificar e monetizar o desejo mimético em escala planetária.

A gênese do poder: a aliança da “Máfia do PayPal”

Mas as ideias, mesmo que muito poderosas, não bastam para construir impérios. Elas precisam de pessoas, de capital e de uma estrutura operacional.

É aqui que entra em cena a Máfia do PayPal, esse grupo de ex-funcionários e cofundadores do PayPal que representa, sem dúvida, uma das maiores concentrações de talento empreendedor e poder econômico da nossa época. Essa aliança não tem nada de teórico; além do mito, ela se formou na intensidade de um ambiente extremamente competitivo e na luta comum pela sobrevivência do PayPal em seus primórdios.

Entre seus membros estão personalidades que literalmente redesenharam o panorama tecnológico — e, portanto, social — do século XXI. Para citar apenas alguns nomes, ao lado de Peter Thiel, verdadeiro mentor intelectual do grupo, estão Elon Musk, que mais tarde fundaria a Tesla e a SpaceX; Reid Hoffman, criador do LinkedIn; Max Levchin; Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim, fundadores do YouTube; Jeremy Stoppelman, do Yelp; David Sacks, atual “czar de IA e criptomoedas” de Trump; e o muito influente Marc Andreessen.

O que une essas pessoas não se resume apenas ao fato de terem compartilhado escritórios. Elas desenvolveram uma cultura comum e cresceram em um ambiente intelectual e operacional baseado na confiança mútua, em uma visão tecnocrática do futuro e em uma ousadia empreendedora pouco preocupada com convenções e normas.

A Máfia do PayPal funcionou como uma rede densa e fortemente interconectada, uma malha de interesses baseada, como uma aliança, no apoio mútuo. Quando o PayPal foi vendido para o eBay em 2002 — liberando tanto capital quanto talentos — seus membros não se dispersaram. Pelo contrário, eles permaneceram ligados, financiando suas respectivas novas empresas, aconselhando-se mutuamente e recrutando-se para novos projetos. Sua rede funcionou como um multiplicador de poder: o sucesso de um contribuía para o capital — tanto financeiro quanto relacional — do sucesso do outro.

Thiel, como já foi dito, desempenhou um papel decisivo no financiamento do Facebook, mas também incentivou Hoffman a lançar o LinkedIn e apoiou as ambições espaciais de Musk. A “Máfia do PayPal” constitui, nesse sentido, uma ilustração concreta da teoria das redes: um grupo restrito de homens que, graças a laços fortes e a uma visão comum, consegue exercer uma influência desproporcional sobre todo o sistema.

Mas, graças a Thiel, um elemento girardiano ainda mais profundo continua a sustentar esse grupo. Thiel sempre procurou, de fato, evitar a concorrência baseada no desejo de imitação dentro das próprias equipes. Na PayPal, ao constatar que a imprecisão na distribuição de funções gerava rivalidades destrutivas, ele atribuiu a cada um responsabilidades tão claramente distintas que cada funcionário detinha um quase-monopólio sobre sua tarefa, neutralizando assim qualquer conflito e promovendo uma cooperação concentrada.

Essa filosofia gerencial — que valoriza um individualismo levado ao extremo dentro de uma estrutura fortemente coordenada — tornou-se uma das marcas registradas das empresas originárias dessa diáspora. É, sem dúvida, o legado concreto mais profundo de Peter Thiel.

Uma revolução invisível: Peter Thiel e o golpe de Estado do Vale do Silício

A transição da empresa digital para o poder político não foi um acidente de percurso, mas o desfecho lógico dessas premissas ideológicas e estruturais. As empresas fundadas ou financiadas pela Máfia do PayPal não se contentaram em vender produtos: elas redefiniram as próprias infraestruturas da sociabilidade, do trabalho, da informação e da segurança.

O Facebook tomou conta das relações humanas.

O LinkedIn mapeou e estruturou o mundo profissional.

O YouTube democratizou — ao mesmo tempo em que a fragmentou ao extremo — a produção de vídeo.

A Palantir Technologies — fundada por Peter Thiel com o apoio da CIA por meio de seu fundo de capital de risco In-Q-Tel — introduziu a lógica da análise de dados no cerne dos aparelhos de inteligência e militares.

O que inicialmente era uma ambição econômica — criar monopólios para escapar da concorrência — tornou-se uma questão política no momento em que essas plataformas alcançaram dimensões globais.

Aplicada às redes sociais, a teoria do desejo mimético revelou então sua verdadeira dimensão política: se os seres humanos são máquinas de imitar, então quem controla os algoritmos que sugerem quem ou o que imitar controla a sociedade.

As plataformas não são neutras. Elas são, como demonstrou Geert Lovink 1, a encarnação de uma ideologia específica: instrumentos que moldam comportamentos e redefinem as normas sociais.

Na segunda década do nosso século, essa influência tornou-se explícita. A pressão por uma monetização cada vez mais intensa, necessária para satisfazer os mercados financeiros após as aberturas de capital — pensamos, em particular, na oferta pública de aquisição do Facebook em 2012 — levou à implantação de ferramentas de perfilagem e microsegmentação que tornaram a opinião pública manipulável a um nível sem precedentes.

O escândalo da Cambridge Analytica foi apenas a ponta do iceberg de um processo mais amplo: dados comportamentais extraídos graças à própria lógica dessas plataformas foram utilizados como armas políticas.

O próprio Peter Thiel personifica essa virada.

Ele passou do papel de investidor libertário para o de ator político central — apoiando abertamente Donald Trump e financiando candidatos que compartilham sua agenda anti-establishment.

Sua visão, alimentada tanto pelo pessimismo antropológico de René Girard sobre a violência das multidões quanto pela profecia do fim do Estado-nação formulada na obra The Sovereign Individual, para a qual ele escreveu o prefácio2, levou-o a considerar a tecnologia não apenas como um instrumento de lucro, mas como uma ferramenta para gerenciar o declínio das instituições democráticas liberais.

Se a democracia está exposta aos desvios irracionais da violência mimética, então a tecnologia oferece, nessa perspectiva, uma alternativa: uma ordem baseada no controle de dados, na previsão algorítmica e em uma gestão tecnocrática das massas.

A ideologia que permeia esse grupo — e, de forma mais ampla, o Vale do Silício — evoluiu gradualmente para formas de pós-humanismo, notadamente por meio das correntes do movimento TESCREAL (Transhumanismo, Extropianismo, Singularitarismo, Cosmismo, Racionalismo, Altruísmo Eficaz e Long-termismo). Essas filosofias, defendidas principalmente por Elon Musk, veem na tecnologia o instrumento capaz de superar os limites biológicos e sociais do ser humano. O Altruísmo Eficaz e o Longo-termismo, em particular, promovidos por figuras como Dustin Moskovitz, transformam a acumulação de capital em um imperativo moral destinado a “salvar o futuro” — mesmo que isso justifique um relativo desinteresse pelas desigualdades atuais em nome de um hipotético bem futuro da humanidade.

No fundo, o que começou como a aventura empreendedora de um grupo de jovens nerds e outsiders em Palo Alto acabou se revelando a construção de uma nova arquitetura do poder.

Munida das intuições filosóficas de Girard divulgadas por Thiel, a Máfia do PayPal compreendeu antes de muitos outros que, na era digital, o verdadeiro poder não residia mais no controle dos meios de produção, mas no controle dos meios de imitação e conexão. Eles construíram uma “Torre” digital para conectar o mundo — mas, acima de tudo, para governá-lo.

Quando as fissuras dessa construção começaram a aparecer — polarização, desinformação, controle algorítmico —, ficou claro que as plataformas não eram meros espaços públicos virtuais, mas poderosas máquinas ideológicas capazes de desafiar a soberania dos Estados e reescrever as próprias regras da coexistência democrática.

O que nasceu como empreendimento econômico transformou-se em poder político porque atingiu a própria raiz do vínculo social: o desejo, a imitação e a violência que daí decorre. Para retomar a expressão de Marietje Schaake, uma revolução invisível havia ocorrido: o Vale do Silício havia se lançado em um golpe de Estado permanente 3.

Uma vingança computacional: a insurreição da Geração X contra a ordem dos boomers

Para compreender plenamente a natureza subversiva do projeto de Peter Thiel e de seu círculo, não basta mapear suas coordenadas filosóficas; é preciso também compreender sua dimensão geracional.

De fato, é possível reconhecer em suas ações os traços de uma fronteira histórica própria da Geração X, que atravessa todo o Vale do Silício. Enquanto a narrativa dominante tende a associar a inovação tecnológica à geração Y ou à Geração Z, a realidade é que a arquitetura profunda do poder digital foi traçada pela Geração X — frequentemente chamada de “geração esquecida”. Foi nesse espaço intermediário, comprimido entre o esmagador legado demográfico dos boomers e a irrupção digital das gerações seguintes, que ocorreu uma transferência silenciosa, mas radical, do poder.

Figuras como Elon Musk, Larry Page, Sergey Brin e Peter Thiel não são meros empreendedores: eles representam a vanguarda de uma geração que, tendo crescido na fronteira entre o analógico e o digital, soube transformar sua marginalidade política em supremacia tecnológica.

Essa geração detém hoje as chaves do poder. Ela ocupa mais da metade dos cargos de liderança mundial no setor tecnológico.

Mas mesmo esse dado quantitativo não basta para explicar a natureza de sua “heresia”.

Em sua configuração atual, o Vale do Silício pode ser interpretado como uma grande revanche da Geração X contra as estruturas de poder herdadas da geração baby boomer. Lá onde os pais haviam ocupado e cristalizado as instituições tradicionais — bancos, grandes empresas hierárquicas, indústria automobilística, guardiões da informação midiática —, os herdeiros da Geração X não buscaram o confronto direto nem tentaram a reforma interna.

Eles escolheram uma estratégia de contorno muito mais eficaz: tornar as antigas instituições obsoletas.

Eles compreenderam que o verdadeiro poder não residia mais no controle das estruturas físicas ou financeiras clássicas, mas no exercício de uma nova soberania : o poder computacional.

Nesse sentido, a epopeia das startups do Vale do Silício representa para essa geração o equivalente existencial de maio de 1968: uma revolução não conduzida nas ruas ou nas universidades, mas com servidores e linhas de código, a serviço de um objetivo preciso: desmantelar as hierarquias rígidas e a lealdade corporativa que constituíam a espinha dorsal do “mundo da geração baby-boomer”. Ao contrário das grandes revoluções do século XX, ela não é ideológica, mas pragmática: esse ato de rebelião herética não rejeita as antigas convenções por princípio, mas em nome da eficiência.

A criação de universos econômicos paralelos constitui a expressão mais tangível disso: o PayPal surgiu para tornar obsoleto o sistema bancário tradicional; a Amazon desintegra o comércio físico; o Google retira da mídia o monopólio do acesso ao conhecimento; a Tesla desafia a indústria automotiva baseada em energias fósseis.

Essas empresas não são apenas um modelo econômico: elas constituem um ato de guerra assimétrica contra a ordem estabelecida.

Peter Thiel encarna perfeitamente esse espírito de “arquiteto silencioso”.

Sua visão política e empreendedora é a de alguém que, ao encontrar os caminhos do poder tradicional bloqueados por uma hierarquia gerontocrática, decide construir uma saída alternativa: um monopólio que não concorre com o mundo antigo, mas que o torna obsoleto.

Na Europa, costuma-se frequentemente ridicularizar a expressão “fake it till you make it” [“finja até conseguir”], reduzindo-a, no máximo, a uma forma de cinismo. Na realidade, ela expressa muito bem a rejeição radical das crenças e do ritmo lento próprios do mundo moldado pela geração baby boomer: traduz uma aceleração imposta por aqueles que decidiram que as regras do jogo anteriores não eram mais válidas.

A Geração X impôs novos modelos organizacionais — estruturas planas, meritocracia baseada em resultados, flexibilidade — não como concessões, mas como armas destinadas a avançar mais rapidamente do que as instituições que ela pretendia ultrapassar.

Hoje, ao percorrer as infraestruturas que ela criou — das redes sociais à nuvem —, vivemos, na verdade, no território conquistado por essa reviravolta geracional.

Mas, para Thiel e seus semelhantes, essa conquista ainda não era um desfecho pacífico. Ela constituía o instrumento de uma governança tecnocrática destinada a superar definitivamente as lentidões da democracia parlamentar — talvez vista como o último vestígio político da geração anterior — a fim de enfrentar os desafios apocalípticos do futuro.

A questão que permanece em aberto é a seguinte: como esse poder alternativo e disruptivo ainda pode ser integrado — se é que isso ainda é possível — em estruturas democráticas que agora correm o risco de serem descartadas como resquícios obsoletos, em vez de serem defendidas como uma conquista da civilização?

Pois a heresia de Thiel não se limita à economia: ela se estende à própria estrutura do poder político, inspirando-se na profecia formulada por The Sovereign Individual 4 . Esse texto, venerado no Vale do Silício como um escrito fundador, anuncia o inevitável declínio do Estado-nação, destinado a se dissolver sob o efeito da revolução digital e das criptomoedas.

Segundo essa visão, a violência não renderia mais como antigamente, enquanto o capital, agora fluido e sem vínculos territoriais, escaparia da arrecadação tributária dos governos.

Desenha-se então um futuro neomedieval no qual a política democrática não passa de um vestígio e onde o conjunto dos serviços essenciais à vida em sociedade — incluindo a segurança — são privatizados e administrados por entidades corporativas.

Nesse universo surge uma nova aristocracia de “indivíduos soberanos”: uma elite cognitiva desligada da geografia, que opera em um ciberespaço livre de jurisdições, deixando para trás uma massa de indivíduos que se tornaram supérfluos.

Thiel adota essa perspectiva não apenas como diagnóstico, mas como programa, financiando tecnologias que aceleram essa dissolução ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, constrói os instrumentos destinados a controlar seus efeitos.

A Palantir e a escrita thieliana do real: estruturas de uma heresia política

O ápice dessa construção ideológica surge no último ensaio teológico de Peter Thiel, escrito em coautoria com Sam Wolfe, onde a contestação da democracia assume uma forma explicitamente apocalíptica.

Traduzido nestas páginas, já o comentamos longamente. Thiel reinterpreta a modernidade científica, inaugurada pela Nova Atlântida de Francis Bacon, não como um processo de emancipação, mas como um projeto sacrílego que visa “abolir Deus” e até mesmo o próprio acaso. A “Casa de Salomão” imaginada por Bacon — instituição secreta dedicada a um conhecimento onisciente capaz de “realizar todas as coisas possíveis” — torna-se, sob sua pena, o arquétipo da Palantir. Embora reconheça o lado obscuro dessa ambição tecnológica, ao aproximar a figura do soberano baconiano do Anticristo bíblico que promete falsamente “paz e segurança”, Thiel parece considerar esse destino como inevitável. Sua visão se cristaliza no dilema formulado por Alan Moore em Watchmen 5 : a humanidade estaria diante de uma alternativa binária e terrível — “Ozymandias ou a guerra nuclear”.

Em outras palavras: ou um regime tecnocrático mundial impondo a salvação pela mentira, ou a aniquilação total. Nessa exegese apocalíptica, Thiel também se inspira, de forma inesperada, no imaginário do mangá One Piece. O «governo mundial» que ali surge, prometendo a ordem absoluta à custa da liberdade, torna-se para ele a representação perfeita de um katechon secularizado: um poder que contém o caos.

Mas essa esperança dialética — a ideia de que o colapso dessa ordem leviatânica poderia abrir uma nova era de liberdade — revela-se, a um exame mais atento, uma falsa esperança.

Pois o que Thiel imagina não é a parousia cristã, ou seja, o evento final que redime a história ao interrompê-la, mas um simples renascimento dentro do ciclo girardiano do tempo.

A destruição da ordem estabelecida não conduz ao Reino dos Céus: ela apenas reativa o mecanismo da violência mimética.

Do caos surgirá necessariamente um novo bode expiatório, em torno do qual se restabelecerá uma ordem provisória, destinada também a ruir.

Sua concepção do tempo não é, portanto, nem linear nem escatológica no sentido cristão: é tragicamente cíclica — e, portanto, pagã.

O apocalipse que ele invoca não é o fim dos tempos. É apenas o fim de um tempo: uma destruição necessária para purificar o sistema e relançar o eterno retorno da violência fundadora.

A partir daí, o desafio lançado por Thiel não opõe mais democracia e autoritarismo: ele assume a forma de uma escolha escatológica resumida de maneira binária — «Anticristo ou Armagedom».

Diante do risco de um caos incontrolável — climático, nuclear ou decorrente de uma inteligência artificial fora de controle —, ele postula que a salvação só pode vir de um poder centralizado, totalitário, próximo do governo mundial despótico, mas salvador, de Ozymandias.

A Palantir torna-se, assim, a síntese dessas visões aparentemente contraditórias: uma máquina girardiana capaz de identificar e neutralizar ameaças antes que a violência mimética exploda, ou seja, um sistema planetário de gestão do bode expiatório.

Ao mesmo tempo, a Palantir torna-se a “Casa de Salomão”, que confere a uma elite um poder quase divino de vigilância e previsão.

Peter Thiel atua em dois planos simultâneos, reveladores da profundidade de sua heresia política: por um lado, ele financia as forças centrífugas que corroem o Estado-nação; por outro, ele arma o Estado para instaurar um controle panóptico.

Quando as democracias liberais adotam seus instrumentos, elas não adquirem apenas um software: importam uma ideologia que considera a transparência um obstáculo e o debate público um luxo que se tornou insustentável.

Ao aceitar a tecnologia de Thiel por meio da “escrita do real” da Palantir, as instituições adotam implicitamente seu diagnóstico: a sociedade seria uma massa mimética incapaz de se autogovernar, e a única alternativa ao apocalipse seria uma ordem tecnocrática imposta por uma elite de soberanos.

Nessa visão, a democracia entendida como autogoverno de cidadãos iguais já está morta —e resta apenas, na escuridão de um data center, a gestão clínica de seu cadáver.

Texto original: L’hérésie américaine : faut-il brûler Peter Thiel?, no Le Grand Continent

FONTES:


  1. Ver, por exemplo: Geert Lovink, Sad by Design: On Platform Nihilism, Londres, Pluto Press, 2019. ↩︎

  2. William Rees-Mogg e James Dale Davidson, The Sovereign Individual: How to survive and thrive during the collapse of the welfare state, prefácio de Peter Thiel, Nova York, Simon & Schuster, 2020 [primeira edição em 1997]. ↩︎

  3. Marietje Schaake, «O golpe de Estado do Vale do Silício» em Le Grand Continent, O Império das Sombras. Guerra e terra na era da IA, Paris, Gallimard, 2025, pp. 61-82. ↩︎

  4. William Rees-Mogg e James Dale Davidson, The Sovereign Individual, op. cit. ↩︎

  5. Série de quadrinhos editada pela DC Comics, publicada em 1986–1987 e criada pelo roteirista Alan Moore, pelo desenhista Dave Gibbons e pelo colorista John Higgins ↩︎

Última modificação